Vejamos outras fotos: na frente do prédio da Cruz Vermelha onde não apareço, o brinde na Casa da Cachaça (era esse o nome do lugar) onde provei pela primeira vez a cana de açúcar sem ser em caldo e acompanhada de pastel, Boate Night Clube Carrossel... Boate?
Como poderia me esquecer, foi a segunda vez que a menina ruiva me chamou de idiota aquela noite. A primeira tinha sido por beber apenas para fazer parte da turma e a segunda por ter acompanhado os outros rapazes a boate que ficava em frente ao estabelecimento onde bebíamos, do outro lado da rua! Ela fez questão de nos fotografar sendo expulsos da casa, não lembro (ou não quero lembrar!) bem ao certo o que fizemos!
Caminhamos mais um pouco e já avistamos o Circo, a menina ruiva não parava de “clicar” sua máquina, o Circo com os Arcos da Lapa ao fundo, o topo da Catedral Metropolitana à esquerda, os majestosos prédios da Petrobrás e do BNDS... Tudo era pano de fundo para o Circo.
Contornamos o Circo passando por construções onde se liam nas fachadas “Fábrica de cofres progresso” e “Fábrica de fogões progresso – fundição de ferro e outros metaes”.
Fundição Progresso... Será que os jovens que vão hoje aos shows no local sabem porque se chama assim?
Chegamos um pouco antes de horário marcado, tínhamos tempo para mais fotos... Quase sempre me davam a máquina para tirar foto de todo o grupo, fosse nos Arcos, em frente ao Circo ou sentados na calçada aguardando a hora de aberturas dos portões...
Faltavam poucos minutos para o portão abrir e a menina ruiva me chamar de idiota... pela terceira vez aquele dia.
Quando estávamos para entrar ela me pediu a capa da máquina para pegar seu convite que tinha guardado ali por segurança. Não sei bem o que disse, mas lembro a resposta: idiota, como pode ter perdido a capa da máquina!
Fiz a única coisa que me restava, entreguei-lhe o meu convite e me afastei do grupo. Sentei na calçada e lembrei que nem voltar pra casa direito sabia!
Ali parado era apenas um desconhecido para quem passava apressado de um lado para o outro, desviavam de mim como fariam se em seu caminho estivesse um obelisco, sem se dar ao trabalho de ler a placa de bronze afixada com toda pompa e honraria que o momento exigia.
Então alguém tocou em meus ombros... Era a menina ruiva com um sorriso amarelo se desculpando pelas vezes que me chamou de idiota e que não iria me deixar sozinho...
Agora estou lembrando, foi a primeira vez que ia ao tão comentado Circo Voador, eu ganhei um ingresso em uma das promoções loucas que a Rádio Fluminense FM realizava. Se me lembro bem era justamente para participar de um show promovido pela emissora no local. Eu morava na Tijuca e não sabia bem como chegar lá, me disseram para pegar um ônibus que deixava perto. A orientação era deixá-lo seguir pela Riachuelo e descer próximo aos Arcos da Lapa, mas também tinham falado da Praça da Cruz Vermelha como ponto de aproximação do local que deveria ficar. Então, por instinto, quando contornei uma praça e avistei o prédio da Cruz Vermelha ao meu lado esquerdo, desci. Caminhei em círculos por alguns minutos até me dar conta que soltando antes e sem um mapa, estava perdido! Hoje parece tolice, mas naquela época nunca tinha ido para aqueles lados.
Eu olhava para os rostos das pessoas procurando identificar aquele que poderia me dar o caminho do “Circo Voador”. Com um nome deste, se perguntasse para qualquer um podiam me chamar de maluco. Ou então fazer uma piadinha do tipo: já experimentou olhar para o céu?
Avistei um grupo de rapazes e garotas da minha idade em frente a um grande portão de ferro que dá acesso à entrada principal do prédio da Cruz Vermelha, situado entre as ruas Carlos Sampaio e Henrique Valadares, e resolvi perguntá-los se sabiam onde ficava o Circo.
A resposta da garota ruiva não poderia ser melhor: Estamos indo pra lá!
A garota ruiva, foi esse o primeiro momento que a vi! Ela se destacava do grupo não só pelos seus cabelos como pelo estilo de se vestir, colorido e despojado.
O tempo que seu rosto fitou o meu para pronunciar aquelas quatro palavras foram suficientes para eu ficar encantado pelo seu olhar. Não porque seus olhos eram grandes, com pupilas de um negro intenso e brilhante, mas porque irradiavam uma sinceridade avassaladora.
Lembro que seguimos pela Av. Mem de Sá, passando pelo IML onde uma placa pendurada chamava a atenção para ser esta uma casa de ciências e não apenas para onde se levam os corpos sem vida.
Em menos de meia hora o grupo que guiava parou em um pequeno estabelecimento onde não se via nada além do que garrafas e mais garrafas de aguardente. Eu, que não bebia, fui gentilmente convidado a dar uma golada como forma de batismo para pertencer ao grupo, depois um segundo gole pela amizade, um terceiro pelo show que íamos assistir... e já não me sentia tão bem!
O fim da nossa história estava próximo, nem os latidos insistentes da minha cadela desviavam minha atenção do que se tornara o epicentro da minha vida nos últimos meses. Pouco sabia se clamavam por carinho ou por alimentação.
Qual o antídoto para o que me envenenara, turvando minha visão e me fazendo percorrer caminhos que me deixavam cada vez mais perdido?
Busco nossas fotos na parte de cima do armário, quase tão inalcançáveis como os momentos que nelas estão registrados, só que aqui um banco de três pernas solucionou a questão.
Fim de ano em Ilha Grande – 1993, Carnaval em Búzios – 1999, Aniversário de 50 anos da mamãe – 1994, Lua-de-mel em Angra dos Reis – 1989, Festa da empresa – 2000... Todos os álbuns tinham referência e data, ela sempre gostou de organizá-los e dizia que fazendo isso era uma maneira de manter a conexão entre as diversas fases da sua vida.
Festa de noivado – 1986, Formatura – 1990, Fonte dos Amores – 1984, Natal – 2002, Natal 2004.
Espalhando os álbuns pela cama, procuro ordená-los cronologicamente, como se pudesse reconstituir através de imagens obtidas em fração de segundos, no abrir e fechar do diafragma de uma máquina fotográfica, a história de nossas vidas.
Para ela a fotografia não era apenas um momento perdido na história e sim um portal do tempo que nos permite regressar ao passado, trazendo à tona todos os sentimentos vivenciados.
A única coisa que eu precisava era encontrar o ponto exato a voltar, mas alguns álbuns e muitas fotos depois, já não conseguia perceber a diferença do seu sorriso na formatura, na foto de fim de ano e na festa da empresa!
Um álbum desgastado, como se mais manuseado que os demais, me chama a atenção: “Fonte dos Amores – 1984”. Quando estava organizando os álbuns não tinha compreendido porque ela o tinha identificado daquela maneira, agora a curiosidade me impulsionava a explorá-lo.
Foram tiradas na Lapa... Tem uma turma encostada em uma das colunas dos arcos que sustentam o trilho do bonde que liga Santa Tereza ao centro do Rio, e tanto eu quanto ela estamos na foto, mas porque tão distantes?
Lógico! Não éramos namorados nesta época! Mas, então porque estávamos juntos?
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